Tempos desafiantes no setor dos seguros
“O setor dos seguros nunca foi o mais popular no “liceu” que é o mercado de trabalho”, refere Inês Paes de Vasconcelos sobre os profissionais desta área.
Admitamos para começo de conversa que o setor dos seguros nunca foi o mais popular no “liceu” que é o mercado de trabalho.
Quando falamos de profissionais em início de carreira, com formações académicas superiores e cujos cursos lhes deram legítimas aspirações de ingressar no mercado corporativo, não temos propriamente uma fila de aspirantes a trabalhar em seguros. Atenção: que os há, há, mas não são uma fatia significativa. Com um número médio elevado de anos de permanência por colab
orador, baixa rotatividade e nível etário dos seus recursos humanos relativamente alto, não se trata de um sector particularmente aberto a outsiders.
Os seguros foram e ainda são tidos como o parente pobre da banca. Mas serão?
Se o mercado em geral exige às empresas bem sucedidas que entreguem resultados aos seus acionistas, fidelizem o seu cliente, captem e retenham talento e ainda tenham um forte employee branding, as vicissitudes do mercado segurador, com as consequências da aplicabilidade do Solvência II, trazem ainda mais desafios e oportunidades. Assistimos a uma tendência de fusões e aquisições de empresas nesta área devido à oportunidade criada pela necessidade da banca de se libertar do seu braço de seguros e, deste modo, garantir uma maior liquidez.
Assim sendo, com entrada de investimento estrangeiro vem um outro tipo de gestão com consequências em cascata ao longo de toda a organização. É necessário rejuvenescer, trazer para dentro de casa outras perspetivas, outra maneira de ver o sector, outro know how. Não necessariamente melhor, somente diferente. É aqui que há abertura para novos perfis e novos projetos dentro destas organizações.
Analisemos o interior de uma empresa seguradora: Qual é o produto? Quem é o cliente? Quais são os canais de distribuição?
No que respeita ao produto “seguro”, as suas caraterísticas técnicas exigem que o desenho e conceção sejam assegurados por especialistas, atuários cujas bases são maioritariamente matemáticas ou engenharias com forte vertente de matemática e cujos backgrounds, fruto de especificidade da função, são da área seguradora. Aqui, o que difere são os skills comportamentais agora mais exigidos a estes profissionais: Capacidade de trabalho em equipa, polivalência, flexibilidade e capacidade de gestão de stress tornam-se requisitos tão relevantes como os técnicos.
Quando olhamos para o cliente, ou seja, quando pensamos no marketing e estratégia da empresa, a situação já é outra. A era digital vai chegar igualmente aos seguros. Os processos têm de se tornar mais eficientes. A estrutura da organização tem de ser mais lean. Há espaço e necessidade para inovar e para ter um espírito de melhoria contínua. Este espírito é aplicado não só ao produto e à sua distribuição, seja ela através dos canais tradicionais de mediadores ou corretores ou através de canais digitais, mas também aos procedimentos e work flows internos da organização. A tendência é a de procurar estes profissionais em sectores como consultoras de gestão, telecomunicações ou novas tecnologias, nomeadamente pelas competências de gestão de projeto, experiência na área de inovação e olhar fresco sobre o sector.
Os desafios para o canal de distribuição “corretoras” são outros. Também aqui se prevê uma tendência para a aglomeração de empresas e concentração de know how. Das corretoras espera-se que funcionem cada vez mais como consultoras financeiras, cujos serviços passem não só pela gestão da carteira de seguros mas também pela consultoria ao nível da gestão de risco e retenção de talento. Por consequência, dos profissionais deste sector espera-se que tenham um conhecimento mais diversificado, competências analíticas mais apuradas e uma capacidade de olhar para o negócio como um todo.
São tempos desafiantes para trabalhar no sector segurador. Um novo perfil de profissional de seguros está-se a formar e o parente pobre começa a rivalizar em termos de atração de talento com os seus familiares mais próximos.
Por Inês Paes de Vasconcelos,
Michael Page Insurance
Fonte: OJE




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